FREIRE,
PAULO. Educação e Mudança. Tradução
Moacir Gadotti e Lilian Lopes Martin. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.
Coleção Educação e Comunicação. vol. I
Por Cláudia A. Rodrigues Murta
Paulo Freire dispensa qualquer apresentação, mas sua
importância mundialmente reconhecida para a educação requer que façamos menção
à sua trajetória como educador e humanista. Freire esteve à frente de projetos
de educação popular de escolarização e conscientização de adultos implantados
em vários países. Mas, graças a suas ideias humanistas e anti-opressoras foi
perseguido e exilado durante o regime de ditadura militar no Brasil. Suas ideias e filosofia reverberaram em todo o
mundo e seu pensamento crítico extremamente atual fundamenta pesquisas em
várias áreas. Ele é considerado um dos grandes pensadores do século XX, e por
isso é leitura obrigatória de todo educador.
A obra - Educação e
Mudança - publicada ano de 1979, prefaciada
por Moacir Gadotti, apesar da diminuta dimensão, apenas quatro capítulos em 79
páginas, apresenta um conteúdo filosófico, evidenciado muitas vezes sob a forma
de aforismos, que leva o leitor, especialmente aquele ligado à educação, a
refletir sobre si mesmo e sobre a centralidade da educação na vida humana.
No primeiro capítulo – O compromisso do profissional com a
sociedade – Paulo Freire faz uma análise do que seja comprometer-se, buscando a
essência do comprometimento. Ele argumenta que o único ser capaz de
comprometer-se é o homem, visto que apenas ele é capaz de distanciar-se de seu
contexto para poder objetivá-lo, e, assim, transformá-lo, e transformando-o,
saber-se transformado por sua criação. O homem por isso, por ser capaz de
refletir e agir, é capaz de comprometer-se. Ele afirma que não há reflexão e
ação fora da relação homem – realidade. Conforme essa relação, o homem tem
condições objetivas ou não para o pleno exercício de sua humanidade. Freire define o compromisso verdadeiro como ligado à solidariedade como gesto
amoroso, não interessado e assistencialista. Ele fala do profissional como o
homem que deve comprometer-se por si mesmo e que, por apropriar-se do
patrimônio cultural da humanidade, a ela deve servir responsavelmente. Para
isso, o profissional deve ampliar seu conhecimento sobre o próprio homem e seu
contexto de forma crítica. Nesse ponto, Freire tece uma crítica ao tecnicismo
afirmando que o homem deve dominar e usar a técnica em favor da humanidade e
não contra ela, escravizando-a. A questão da alienação é evidenciada por
Freire, que argumenta que ela é fruto do estranhamento do homem de seu mundo,
de seus pares e de si mesmo. E ainda, que essa condição inibe a criatividade,
desenvolve o medo do risco, da mudança. Relaciono
esse alienamento à práxis do professor que não se envolve com seu fazer docente,
repetindo métodos, técnicas e avaliações alheias à sua realidade, à sua
vivência, que aliena-se por acomodar-se, intimidar-se e não arriscar a criar. O compromisso do profissional da educação é
com o seu educando e consigo mesmo, solidariamente, buscando humanizar e
humanizar-se em comunhão com seu tempo e lugar.
No segundo
capítulo do livro intitulado – A Educação e o processo de mudança social – Freire
faz uma reflexão sobre a natureza da educação que encontra-se na própria
essência da natureza do homem. Nesse sentido, Freire desenvolve um de seus
fundamentos filosóficos mais conhecidos e lúcidos sobre o caráter humano, que diz
respeito à consciência da condição inacabada do homem. Devido a esse
inacabamento, o homem pode educar-se, buscando superar a si mesmo, sendo
sujeito de sua educação. Essa busca, entretanto, não se faz de forma solitária,
ela é feita em comunhão com outros homens. Nesse ponto, o autor faz uma citação
de Jaspers, que acho importante reproduzir “eu sou na medida em que os outros
também são”. Essa citação remete à ideia de interação tão cara ao nosso tempo.
A partir
desse ponto, Freire desenvolve um pensamento fundamentado em dicotomias, como o
saber e a ignorância, amor e desamor, esperança e desesperança, que de acordo
com ele, é na busca do saber e na consciência de sua ignorância que o homem se
educa, quer buscar o saber. Essa busca é um ato de amor, de comunhão entre os
homens, um ato de esperança de ser mais. Pela possibilidade de se relacionar
com outras consciências, o homem pode projetar-se nos outros e no mundo,
transcendendo-se. O exercício dessa consciência e transcendência deve ser
estimulado nos educandos para que reflitam sobre sua própria condição e
realidade. Freire ainda fala do ímpeto criador do homem que está no âmago da
condição para a mudança. Uma mudança que urge acontecer, mas que deve estar
atrelada à consciência do que fomos, do que somos e do que queremos ser.
Uma
importante concepção desenvolvida por Freire nesse capítulo é a de consciência
bancária da educação. Ele critica a educação passiva que se desenvolve em
nossas escolas, da forma como depositamos conhecimentos na cabeça de nossos
educandos esperando que ao final do processo de ensino se saque o que foi
depositado. Paulo Freire argumenta que o “destino do homem é criar e
transformar o mundo, sendo sujeito de sua ação”, para isso ele toma consciência
de si e do mundo à medida que conhece e compromete-se com a própria realidade.
Nesse
capítulo ainda, Freire caracteriza as consciências ingênua e crítica. A
primeira tende ao simplismo, a se apegar a formas já cristalizadas e soluções
mágicas para os problemas da realidade reduzindo tudo ao fatalismo e aceitação
massificadora e que a realidade é estática e imutável. Já a consciência crítica
analisa em profundidade, buscando a causalidade das coisas, pautando-se no
conhecimento científico, livre de preconceitos. É inquieta, estabelece o
diálogo e se responsabiliza. Reconhece que a realidade é mutável e que o novo e
o velho devem conviver e contribuir cada qual com sua especificidade.
No terceiro
capítulo – O papel do trabalhador social no processo de mudança – Freire fala
sobre a necessidade de o trabalhador social se posicionar diante da mudança. Mais
uma vez, o autor faz uma análise da frase que dá título ao capítulo e ressalta
a importância de um olhar crítico sobre o outro, que Freire denomina de
ad-mirar, ato de penetrar na essência do que é e admirado, olhar de dentro, ir
ao todo e voltar às partes constitutivas. Nessa relação dialética encontra-se o
papel do trabalhador social, no processo de ir e vir, no processo de mudança,
que Freire discute ser um jogo dialético de mudança e estabilidade e esse jogo
resulta da ação do trabalho do homem sobre o mundo, o mundo histórico-cultural.
Freire afirma que esse mundo histórico-cultural é produto da práxis humana e ao
mesmo tempo age sobre o homem condicionando-o. A mudança só poderá ser operada
pela ação dos próprios homens, que conscientes de sua realidade, buscam
humanizar-se, querer o seu ser mais. O trabalhador social que optar pela
mudança terá que trabalhar com os homens, juntos, em comunhão, para operar a
mudança da estrutura social.
No último
capítulo cujo título é – Alfabetização de adultos e conscientização – Paulo
Freire apresenta cada etapa de seu método de educação de adultos. Antes de falar
propriamente do método Paulo Freire, como ficou conhecido, o autor discute
sobre a necessidade de se refletir sobre o conceito de cultura, que subjaz toda
atividade humana e é a essência do fazer educativo. No restante do capítulo,
Paulo Freire descreve minuciosamente cada etapa do método de alfabetização de
adultos, método esse que revolucionou a história da educação, por captar a
essência da aprendizagem, o entendimento, a apreensão, o letramento das
práticas de leitura e escrita. A ideia e a denominação Letramento, só quase uma
década depois da edição desse livro foi mencionada por Mary Kato na educação
brasileira, mas Freire já percebia que a mera decodificação e codificação da
linguagem escrita não é suficiente para alfabetizar/letrar o sujeito. A gênese
do método Paulo Freire encontra-se no diálogo, na percepção dos universos
vocabular e cultural dos educandos para a partir deles adentrar no mundo da
escrita conscientes de seu estado de sujeito de sua história. Nessa prática, o
educador é alguém que ad-mira o outro, que por meio do diálogo, de situações
problema, leva os educandos a se responsabilizarem por sua aprendizagem, a
perceberem-se como agentes do processo de aprender. Não reproduzirei cada etapa
descrita por Freire de seu método, visto que acredito que todos nós educadores
já o conhecemos, mas fica o alerta de sempre revisitá-lo, buscando beber em sua
fonte para revigorar nossa prática docente.
Ler Paulo
Freire é sempre um exercício reflexivo e auto-avaliativo para todo educador. O
texto Educação e Mudança nos traz esperança e resiliência para continuarmos na
seara da educação com o espírito de solidariedade para nos comprometermos
verdadeiramente com a mudança social.
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