sábado, 31 de agosto de 2013

Resenha - Educação e Mudança

Nossa professora pediu que revisitássemos a obra de Paulo Freire - Educação e Mudança - e aí está minha leitura desse cânone da Educação.

FREIRE, PAULO. Educação e Mudança. Tradução Moacir Gadotti e Lilian Lopes Martin. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. Coleção Educação e Comunicação. vol. I
Por Cláudia A. Rodrigues Murta

   Paulo Freire dispensa qualquer apresentação, mas sua importância mundialmente reconhecida para a educação requer que façamos menção à sua trajetória como educador e humanista. Freire esteve à frente de projetos de educação popular de escolarização e conscientização de adultos implantados em vários países. Mas, graças a suas ideias humanistas e anti-opressoras foi perseguido e exilado durante o regime de ditadura militar no Brasil.  Suas ideias e filosofia reverberaram em todo o mundo e seu pensamento crítico extremamente atual fundamenta pesquisas em várias áreas. Ele é considerado um dos grandes pensadores do século XX, e por isso é leitura obrigatória de todo educador.
   A obra - Educação e Mudança -  publicada ano de 1979, prefaciada por Moacir Gadotti, apesar da diminuta dimensão, apenas quatro capítulos em 79 páginas, apresenta um conteúdo filosófico, evidenciado muitas vezes sob a forma de aforismos, que leva o leitor, especialmente aquele ligado à educação, a refletir sobre si mesmo e sobre a centralidade da educação na vida humana.
   No primeiro capítulo – O compromisso do profissional com a sociedade – Paulo Freire faz uma análise do que seja comprometer-se, buscando a essência do comprometimento. Ele argumenta que o único ser capaz de comprometer-se é o homem, visto que apenas ele é capaz de distanciar-se de seu contexto para poder objetivá-lo, e, assim, transformá-lo, e transformando-o, saber-se transformado por sua criação. O homem por isso, por ser capaz de refletir e agir, é capaz de comprometer-se. Ele afirma que não há reflexão e ação fora da relação homem – realidade. Conforme essa relação, o homem tem condições objetivas ou não para o pleno exercício de sua humanidade. Freire define o compromisso verdadeiro como ligado à solidariedade como gesto amoroso, não interessado e assistencialista. Ele fala do profissional como o homem que deve comprometer-se por si mesmo e que, por apropriar-se do patrimônio cultural da humanidade, a ela deve servir responsavelmente. Para isso, o profissional deve ampliar seu conhecimento sobre o próprio homem e seu contexto de forma crítica. Nesse ponto, Freire tece uma crítica ao tecnicismo afirmando que o homem deve dominar e usar a técnica em favor da humanidade e não contra ela, escravizando-a. A questão da alienação é evidenciada por Freire, que argumenta que ela é fruto do estranhamento do homem de seu mundo, de seus pares e de si mesmo. E ainda, que essa condição inibe a criatividade, desenvolve o medo do risco, da mudança.  Relaciono esse alienamento à práxis do professor que não se envolve com seu fazer docente, repetindo métodos, técnicas e avaliações alheias à sua realidade, à sua vivência, que aliena-se por acomodar-se, intimidar-se e não arriscar a criar.  O compromisso do profissional da educação é com o seu educando e consigo mesmo, solidariamente, buscando humanizar e humanizar-se em comunhão com seu tempo e lugar.
   No segundo capítulo do livro intitulado – A Educação e o processo de mudança social – Freire faz uma reflexão sobre a natureza da educação que encontra-se na própria essência da natureza do homem. Nesse sentido, Freire desenvolve um de seus fundamentos filosóficos mais conhecidos e lúcidos sobre o caráter humano, que diz respeito à consciência da condição inacabada do homem. Devido a esse inacabamento, o homem pode educar-se, buscando superar a si mesmo, sendo sujeito de sua educação. Essa busca, entretanto, não se faz de forma solitária, ela é feita em comunhão com outros homens. Nesse ponto, o autor faz uma citação de Jaspers, que acho importante reproduzir “eu sou na medida em que os outros também são”. Essa citação remete à ideia de interação tão cara ao nosso tempo.
   A partir desse ponto, Freire desenvolve um pensamento fundamentado em dicotomias, como o saber e a ignorância, amor e desamor, esperança e desesperança, que de acordo com ele, é na busca do saber e na consciência de sua ignorância que o homem se educa, quer buscar o saber. Essa busca é um ato de amor, de comunhão entre os homens, um ato de esperança de ser mais. Pela possibilidade de se relacionar com outras consciências, o homem pode projetar-se nos outros e no mundo, transcendendo-se. O exercício dessa consciência e transcendência deve ser estimulado nos educandos para que reflitam sobre sua própria condição e realidade. Freire ainda fala do ímpeto criador do homem que está no âmago da condição para a mudança. Uma mudança que urge acontecer, mas que deve estar atrelada à consciência do que fomos, do que somos e do que queremos ser.
  Uma importante concepção desenvolvida por Freire nesse capítulo é a de consciência bancária da educação. Ele critica a educação passiva que se desenvolve em nossas escolas, da forma como depositamos conhecimentos na cabeça de nossos educandos esperando que ao final do processo de ensino se saque o que foi depositado. Paulo Freire argumenta que o “destino do homem é criar e transformar o mundo, sendo sujeito de sua ação”, para isso ele toma consciência de si e do mundo à medida que conhece e compromete-se com a própria realidade.
   Nesse capítulo ainda, Freire caracteriza as consciências ingênua e crítica. A primeira tende ao simplismo, a se apegar a formas já cristalizadas e soluções mágicas para os problemas da realidade reduzindo tudo ao fatalismo e aceitação massificadora e que a realidade é estática e imutável. Já a consciência crítica analisa em profundidade, buscando a causalidade das coisas, pautando-se no conhecimento científico, livre de preconceitos. É inquieta, estabelece o diálogo e se responsabiliza. Reconhece que a realidade é mutável e que o novo e o velho devem conviver e contribuir cada qual com sua especificidade.
  No terceiro capítulo – O papel do trabalhador social no processo de mudança – Freire fala sobre a necessidade de o trabalhador social se posicionar diante da mudança. Mais uma vez, o autor faz uma análise da frase que dá título ao capítulo e ressalta a importância de um olhar crítico sobre o outro, que Freire denomina de ad-mirar, ato de penetrar na essência do que é e admirado, olhar de dentro, ir ao todo e voltar às partes constitutivas. Nessa relação dialética encontra-se o papel do trabalhador social, no processo de ir e vir, no processo de mudança, que Freire discute ser um jogo dialético de mudança e estabilidade e esse jogo resulta da ação do trabalho do homem sobre o mundo, o mundo histórico-cultural. Freire afirma que esse mundo histórico-cultural é produto da práxis humana e ao mesmo tempo age sobre o homem condicionando-o. A mudança só poderá ser operada pela ação dos próprios homens, que conscientes de sua realidade, buscam humanizar-se, querer o seu ser mais. O trabalhador social que optar pela mudança terá que trabalhar com os homens, juntos, em comunhão, para operar a mudança da estrutura social.
   No último capítulo cujo título é – Alfabetização de adultos e conscientização – Paulo Freire apresenta cada etapa de seu método de educação de adultos. Antes de falar propriamente do método Paulo Freire, como ficou conhecido, o autor discute sobre a necessidade de se refletir sobre o conceito de cultura, que subjaz toda atividade humana e é a essência do fazer educativo. No restante do capítulo, Paulo Freire descreve minuciosamente cada etapa do método de alfabetização de adultos, método esse que revolucionou a história da educação, por captar a essência da aprendizagem, o entendimento, a apreensão, o letramento das práticas de leitura e escrita. A ideia e a denominação Letramento, só quase uma década depois da edição desse livro foi mencionada por Mary Kato na educação brasileira, mas Freire já percebia que a mera decodificação e codificação da linguagem escrita não é suficiente para alfabetizar/letrar o sujeito. A gênese do método Paulo Freire encontra-se no diálogo, na percepção dos universos vocabular e cultural dos educandos para a partir deles adentrar no mundo da escrita conscientes de seu estado de sujeito de sua história. Nessa prática, o educador é alguém que ad-mira o outro, que por meio do diálogo, de situações problema, leva os educandos a se responsabilizarem por sua aprendizagem, a perceberem-se como agentes do processo de aprender. Não reproduzirei cada etapa descrita por Freire de seu método, visto que acredito que todos nós educadores já o conhecemos, mas fica o alerta de sempre revisitá-lo, buscando beber em sua fonte para revigorar nossa prática docente.
   Ler Paulo Freire é sempre um exercício reflexivo e auto-avaliativo para todo educador. O texto Educação e Mudança nos traz esperança e resiliência para continuarmos na seara da educação com o espírito de solidariedade para nos comprometermos verdadeiramente com a mudança social.




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